quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Lampião Moderno Carlos Araújo

"Alguém aí tem resposta Pra pergunta que eu faço?
 Lampião, rei do cangaço Foi bandido ou foi herói?
 Nem sei se esta é a questão, Pois hoje a corrupção
Tem um punhal cangaceiro Sem dó e sem piedade,
Sangrando a dignidade De quem é bom brasileiro.
O Virgulino moderno É bandido refinado:
Exibe carro importado,Tem jatinho e muito mais.
 A caneta é seu fuzil, Com ela assalta o Brasil Do jeito que sempre quis:
Feito cupim na madeira, Fazendo uma buraqueira Nas finanças do País.
 Esse novo Virgulino Não tem chapéu estrelado, Não sabe dançar xaxado,
 Nem canta Mulher Rendeira. Ele não dorme no mato, Ama o conforto e o bom trato.
 E não agüenta repuxo: Com seu dinheiro e malícia, Quando foge da polícia,
 Se esconde em hotel de luxo. Não anda pelas caatingas,
 Nem cruza moita de espinho,  Mas constrói o seu caminho
 Com muito nome esquisito: É fraude, é clientelismo,
 É pilhagem, é nepotismo, É propina, é malandragem. Mas ele não se contenta:
 A tudo isso acrescenta A mentira e a rapinagem.
 Quando chega a eleição, Sendo ele candidato, Promete roupa, sapato,
 Dentadura, leite e lote. Se tem amigo disposto A sonegar o imposto,
 Ele segura a peteca Com uma frase canalha: - Se eu vencer a batalha
 Eu perdôo essa merreca! No palanque faz de Deus O seu cabo eleitoral,
 Criando o clima ideal À exploração da fé. Seu discurso é de devoto,
 Mas sua fé é o voto Da humilde multidão Que, inocente, se dobra:
 Vira massa de manobra Nas garras do Lampião. O seu instinto perverso
 É muito sofisticado: Ele mata no atacado, Quando desvia milhões
 Em cada cheque que assina. O bandoleiro assassina Gente em escala brutal 
De onde vem a matança? Da falta de segurança, De médico, hospital...
 É direito da criança Ensino de qualidade, Mas dessa realidade
 Pouca criança desfruta. E quanto ao saneamento,
 Não existe investimento Neste importante setor,
 Porque o nosso dinheiro Vai parar no estrangeiro,
 Na conta do malfeitor. O cangaceiro de hoje Tem site na Internet
 E grava até em disquete Os seus planos de ação. Certo da impunidade,
 Ele se sente à vontade Pra dizer sem embaraço, Justificando a orgia: -
Lampião nada fazia Já eu roubo mas eu faço!
 Penso até ser injustiça Comparar o Virgulino Lá do sertão nordestino
 Com esses cabras de hoje. Pois de uma coisa estou certo:
 Lampião nem chega perto Desses que, de forma vil
 E com bastante requinte, Saqueiam o contribuinte
 Que ainda crê no Brasil Ah, capitão Virgulino,
 Que andas fazendo agora? Chega de tanta demora.
 Sai dessa cova ligeiro, Vem retomar teu reinado! Anda logo,
desgraçado, Chama teus cabras de fama,
 Traz Corisco e Ventania, Quinta-Feira e Pontaria, Tira o país dessa lama!
 Chama Dadá, traz Maria, Pra te dar inspiração,
 Traz Canário e Azulão. Onde andam Moita Brava,
 Jararaca e Zé Sereno, Que provaram do veneno Da refrega sertaneja?
 E Bem-Te-Vi, bom de briga, Cantando a mesma cantiga,
 Não vai fugir da peleja. Não esquece Volta Seca,
 Sabonete e Jitirana, Que viravam caninana,
 Nos instantes de combate. Chama também Zé Baiano,
 Pois entra ano e sai ano E a coisa fica mais feia. Já são muitos excluídos
 E a culpa é de bandidos Que precisam levar peia!
 Anda logo, que o Brasil Já se cansou do teu mito,
 Ouve o apelo e o grito Do povo deste país. Mas cuidado,
Capitão, Cuidado com a mangação Que pode ser um horror.
 Já tem corrupto espalhando Que, em formação de bando, Lampião era amador!"